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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Carta aberta aos Rubro-negros e a todos os envolvidos no negócio futebol

Felipe Oliveira/felipeoliveira.fot.br
O texto abaixo foi escrito pelo Sr. Paulo Carneiro, referente aos avanços promovidos por sua administração durante o período que esteve a frente do E.C. Vitória. Esqueçam a rivalidade, e observem os pontos relacionados aos negócios que envolvem o futebol. Agradecimento especial a Jovino Pereira, que fez o texto chegar até a mim, por correio eletrônico.

"Antes de qualquer outra coisa, este texto tem, na verdade, no equilíbrio e na racionalidade, o tripé necessário para se comunicar de forma transparente com todos aqueles que direta e/ou indiretamente estão envolvidos com o futebol, mais especificamente com o “negócio” futebol. Aliás, esta é a primeira verdade racional que precisa ser dita com absoluto equilíbrio aos milhões de torcedores deste esporte único no mundo, e neste caso, especialmente aos torcedores do Esporte Clube Vitória: “O futebol não é somente o mais apaixonante de todos os esportes, é simplesmente um dos maiores negócios da indústria do entretenimento!” [Jovino Pereira]. Foi graças à esta percepção que o Vitória se transformou nas duas últimas décadas.

Outra questão fundamental a ser considerada no preâmbulo desta carta, é que não é possível deixar de ressaltar que existem dois outros aspectos envolvidos neste processo, e que são inteligentemente utilizados para “construir verdades”: 1o) A “paixão” do torcedor; 2o) A “sociedade do espetáculo”, elemento indissociável do mundo contemporâneo inteiramente conectado com a “verdade midiática”. Para compreender estes dois pontos, vale referenciar duas expressões:

“A mão que afaga é a mesma mão que apedreja”. Como conseqüência da paixão, mais do que do amor pelo seu clube, o torcedor age quase sempre como um louco apaixonado que em um determinado momento mais do que afaga, mas quase que idolatra o técnico, o jogador ou mesmo o presidente, no momento seguinte é o mesmo que pede sistematicamente a cabeça daquele que no jogo ou na competição foi carregado nos braços. Mas assim é a paixão e ela é uma engrenagem vital no futebol.

Quanto à sociedade do espetáculo, é preciso buscar um referencial teórico no filósofo francês Guy Debort, que escreveu em 1967 sua principal obra (A Sociedade do Espetáculo), e que, segundo Jean Jacques Pauvert, “ele não antecipou 1968, antecipou o século XXI”. Debort começa sua obra fazendo a seguinte afirmação: “Toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação”. No geral, é assim que tem se comportado a sociedade contemporânea, mais claramente naquelas atividades cuja relação com a mídia é mais intensa, o futebol é uma dessas atividades, principalmente porque ele atinge as massas e convive com o mundo político e das celebridades.

Há hoje uma estratégia que utiliza desses dois elementos acima mencionados para descaracterizar o que foi uma gestão vitoriosa, desenvolvida nos mais de 15 anos que efetivamente transformou um clube perdedor e periférico em clube vencedor e de dimensão nacional, além de uma relativa visibilidade internacional conquistada com o incomparável trabalho implementado nas divisões de base. Não posso, entretanto, sob pena de fugir ao tripé (VERDADE, EQUILÍBRIO, RACIONALIDADE) que norteia esta minha declaração, deixar de reconhecer que este trabalho conduzido sob minha liderança não teria sido possível sem a participação de todos os rubro-negros que estiveram comigo durante este período, numa unidade jamais obtida ao longo dos mais de 100 anos de existência do Esporte Clube Vitória. Portanto, é necessário neste momento de extrema dificuldade, compreender que a paixão não pode ser o fio condutor para tirar o clube dessa situação, pois somente com a verdade, equilíbrio e racionalidade se corrigirá equívocos cometidos sem se perder o que de muito positivo foi conquistado.

É para contribuir com este processo, mas também para me posicionar perante a família rubro-negra, que esclarecerei uma série de questões que vem sendo objeto de veiculação na mídia e que merecem ser discutidas e analisadas com base nos três princípios que orientam esta minha Carta Aberta. Para um melhor entendimento, abordarei separadamente cada uma das questões levantadas nos últimos meses que considero merecedoras de reparos ou esclarecimentos mais detalhados.

Apego ao Poder
Aqui é preciso desmistificar algumas questões que me colocam como um dirigente esportivo extremamente apegado ao poder de ser presidente do Esporte Clube Vitória. Demonstrei de forma prática, na ação e não no discurso, o quanto esta afirmação é incorreta. Quando viabilizamos o Vitória S/A, era o presidente do Esporte Clube Vitória e, considerando ter cumprido uma etapa do projeto de transformar o Vitória em efetivamente um grande clube nacional, renunciei a tal presidência, a qual foi assumida por Maneca Tanajura. Tornei-me então presidente do Vitória S/A, apenas um cargo executivo passível de mudança de acordo com indicação e interesse do próprio Esporte Clube Vitória. Também foi uma decisão pessoal abrir mão da presidência do Vitória S/A no momento em que o clube caiu para a terceira divisão.

Critérios para realização de Auditoria
É importante ressaltar que o Vitória S/A, durante toda a nossa gestão, sofreu auditoria feita por auditores independentes, como cabe a toda empresa S/A, com a divulgação dos demonstrativos contábeis, sem que tivesse havido neste período quaisquer questionamentos de quem quer que fosse quanto à licitude dos atos e ações praticados por quem geria a organização. É bom ratificar que está se falando em auditoria de contas que ainda não haviam sido prestadas. No entanto, não posso deixar de citar que o atual presidente, Alexi Portela, nos afirmou em  telefonema na época, não ter sido encontrado nada de ilícito.

Recompra de ações ao Exxel Group
Apesar de não ter sido constatado nenhuma ilicitude, segundo afirmações do presidente Alex Portela, uma crítica tem sido recorrente entre aqueles que estão atualmente na direção do clube - a decisão de recomprar as ações do sócio majoritário, o Exxel Group. Para explicar esta decisão, é preciso esclarecer alguns pontos e o contexto no qual tal decisão foi tomada:

1º  Havia um claro conflito entre a visão que tínhamos sobre o futuro do futebol e do Vitória e do Exxel Group, que vinha demonstrando total desinteresse por continuar investindo nesta atividade;

2º  O Exxel Group não vinha cumprindo cláusula contratual, asfixiando financeiramente o Vitória S/A;

3º  O processo interno de discussão da recompra das ações foi compartilhado entre todos os membros da diretoria do Esporte Clube Vitória e do próprio Vitória S/A, além de conselheiros influentes. A maior prova de que tal decisão foi conjunta, envolvendo vários e ilustres rubro-negros, é que coube ao presidente do Esporte Clube Vitória e não ao presidente do Vitória S/A, viajar à Argentina para negociar as condições de recompra das ações. Eu não era mais o presidente do Clube;

4º  Em função dos conflitos no relacionamento com o Exxel Group, o Vitória S/A foi à justiça visando conseguir condições vantajosas na negociação de recompra, e isto foi alcançado;

5º  Naquele momento, o Vitória estava fazendo o maior investimento no futebol profissional para não correr risco de rebaixamento no Campeonato Brasileiro, e estava fazendo excelente campanha na Copa do Brasil, chegando à semifinal da competição. Com a negociação em curso do aumento dos direitos de TV do Clube dos 13, o Vitória teria totais condições de cumprir os compromissos assumidos, pois o valor ano passaria dos R$ 5,5 milhões para R$ 11 milhões/ano;

6º  Superados os obstáculos finais de licença ambiental, a partir de setembro de 2005 seriam iniciadas as obras do Complexo Esportivo que alavancariam o Vitória estruturalmente, abrindo imensas possibilidades de se atrair novos investidores em condições ainda mais vantajosas.

Estas foram sinteticamente as variáveis envolvidas no processo de negociação da recompra das ações do Exxel Group, cuja decisão foi na época comemorada por dirigentes, conselheiros e torcedores, como a mais acertada. Concluímos a negociação pagando pelas ações a módica quantia de 500 mil dólares. Quanto elas valem hoje e valerão no futuro?

Comparativo: Vitória do passado e do presente
É sempre bom se fazer uma análise comparativa com dados que mostrem concretamente o que foi conseguido durante este período em que estivemos à frente da gestão do clube, para isto, cabe relacionar uma série de dados estruturais e esportivos que demonstram por si só o quanto o clube se transformou para melhor. E, por isso, pôde rapidamente retornar à primeira divisão. Afinal, como era o Vitória daquela época?

§  A situação da Toca do Leão era absolutamente precária, não propiciando aos atletas as condições mínimas de trabalho, afetando a saúde dos mesmos em função do aterro sanitário de Canabrava. Diversos jogadores contraíam hepatite naquelas condições.

§  O Estádio do Barradão estava há três anos com as obras paralisadas, sem condições de jogo, sem iluminação, sem arquibancadas concluídas, sem campos de treinamento, enfim, sem o mínimo necessário a um clube de futebol desenvolver as suas atividades;

§  A cada competição, o clube tinha que praticamente contratar um elenco completo, pois anualmente os jogadores que vinham emprestados deixavam o clube no término dos campeonatos;

§  Não havia divisão de base e o futebol profissional carecia das condições adequadas para treinamento;

§  Embora possam parecer histórias folclóricas, um banco de Kombi funcionava como sofá de escritório e as janelas eram amarradas com arame;

§  O clube tinha somente 10 títulos estaduais, dois deles como amador;

O que foi feito e conquistado durante nossa administração?
§  Reforma e conclusão do Barradão, arquibancadas, bilheteria, cadeiras, tribuna de honra, muro cercando o estádio, portaria, construção da Av. Arthêmio Valente etc;

§  Como Deputado eleito pela torcida rubro-negra, foi viabilizada a construção da avenida Arthêmio Valente;

§  Através do mais ilustre conselheiro do Vitória, o senador Antônio Carlos Magalhães, conseguimos a doação do moderno sistema de iluminação do Barradão;

§  Durante o apagão, o Vitória foi o primeiro clube brasileiro a se adaptar a nova situação, adquirindo dois grupos geradores que garante até hoje uma importante economia de energia elétrica;

§  Construção do Centro de Treinamento Manoel Pontes Tanajura com três campos e sistema de drenagem;

§  Construção de mais seis campos para o CT com terraplenagem concluída e 70% das obras concluídas e já pagas;

§  Construção da Concentração Vidigal Guimarães para os atletas profissionais;

§  Reforma da Concentração Raimundo Rocha Pires para os atletas da Divisão de Base;

§  Construção / reforma de diversas instalações do CT, como almoxarifado, refeitório, central de abastecimento, etc.;

§  Aquisição da Sede de Praia (antigo Clube Piatã);

§  Transformação e adaptação da estrutura da sede de praia para Sede Administrativa Ademar Lemos;

§  Venda ao grupo Madrid / Lisboa da Sede Adhemar Lemos por R$ 8 milhões para serem investidos na infra-estrutura do clube. Estes recursos ingressaram no clube após a nossa gestão;

§  Todo o passivo do clube, de toda a sua existência até junho de 2000, foi regularizado com recursos da sociedade com o Exxel Group;

§  O Plano Diretor, elaborado por Ivan Smarcevisk foi deixado pronto com recursos destinados para sua execução - usaram o dinheiro pra sustentar o clube na Série C, desobedecendo orientação expressa do Conselho Deliberativo. Motivo nobre, mas esse registro serve para demonstrar que o clube não estava com o caixa quebrado;

§  Entrada no Clube dos 13, no final do ano de 1999, proporcionando receitas fixas que determinaram sua auto-sustentação financeira;

§  Hegemonia do futebol regional e conquista de várias dezenas de títulos com a nossa divisão de base em torneios pelo mundo afora e em competições oficiais no país.

§  Inédito vice-campeonato brasileiro em 93, com uma equipe formada a base de jovens atletas formados no clube;

§  Mais de uma centena de atletas formados, e que até os dias de hoje representam o clube dentro de campo e traduzem suas performances em resultados financeiros importantes. Todos, sem exceção, foram formados por nossa equipe. Um legado técnico que fez o clube ser reconhecido como uma das maiores escolas de formação do mundo. Vários deles se traduziram em recursos no caixa do clube após a nossa saída;

§  Participação ativa no projeto da TIMEMANIA e na elaboração da Lei Pelé.

Este foi o clube que durante esses cinco anos foi apresentado ao torcedor como clube quebrado à espera do “mecenas”.

Visão do Futebol-Negócio
Foi esta visão moderna do futebol que permitiu ao Vitória superar sua localização fora do eixo econômico do centro-sul, se tornando uma referência de clube para o país. Este é um legado que foi deixado no clube e que não pode se perder pelo fato circunstancial do Vitória estar disputando atualmente a Segunda Divisão. As mudanças ocorridas no futebol e na legislação esportiva só reforçaram a necessidade de se pensar no Vitória grande, e para isso é preciso continuar formando e vendendo jogadores, pois esta é ainda uma receita fundamental para um clube com as características do Vitória e decerto para qualquer clube do mundo.

Afirmações de que vendemos jogadores prematuramente é fruto do desconhecimento da própria legislação, que reduziu em muito a margem de manobra que permitia estender o ciclo de permanência dos jogadores nos clubes formadores. Quem define o melhor momento de venda é o próprio mercado, agora também voltado ao mercado interno, graças à entrada de vultosos recursos de marketing e TV nos clubes e a chegada dos Fundos de Investimento. As propostas de clubes do exterior só acontecem nos meses de julho/agosto e em janeiro, períodos reservados pela FIFA para regularização de atletas. A não efetivação de uma negociação nestes períodos pode representar a perda de um grande negócio, pois a dinâmica de compra/venda é cada vez mais intensa.

O que vemos agora é um total despreparo dos atuais dirigentes para manejar o clube e aproximar potenciais parceiros e investidores para que o clube possa definitivamente crescer e diminuir a grande diferença orçamentária para os doze mais ricos.

A questão gerencial do futebol e a indicação de um profissional para trabalhar ao lado de um abnegado é o espelho do atraso e da falta de percepção do que o clube realmente precisa. Questões operacionais são consequências da falta de visão empresarial. Se não fosse assim, porque se contratou sete gerentes de futebol nesse período e nenhum deu certo? Será que são todos incompetentes? Claro que não. A questão vem de cima, do modelo de gestão utilizado. Retornamos às práticas da década de 70, quando o amadorismo imperava no clube. Se montava grandes equipes e o resultado era sempre negativo.

O Legado
Esse é o grande objetivo de um dirigente: deixar um legado de realizações e títulos para as novas gerações de torcedores. Éramos 11% no Estado e quando saí ultrapassamos os 42% de jovens torcedores na sua maioria, a quem denominamos de “Geração Barradão”. Esses jovens torcedores não aceitam mais retrocessos. Foram acostumados a sentir os ventos do crescimento e da afirmação como força emergente do futebol brasileiro.

Sinto que estamos ficando para trás, esquecidos e percebidos como uma equipe comum, sem liderança que possa intervir nas discussões nacionais do futebol brasileiro. Como crescer as receitas de marketing se não lutamos nos centros de poder do futebol brasileiro para aumentar a visibilidade da equipe, na janela de exibição “Aberta”? Nos afastamos do Clube dos 13 e nas reuniões somos representados por um técnico do terceiro escalão, que tenho certeza que deve se perguntar o que está fazendo ali. Abnegados, como o nome indica, não podem ser cobrados e responsabilizados por nada. Apenas dão sua parcela de colaboração pelo clube que amam, assim sendo não podem mais fazer parte do organograma de um clube de futebol. O atual presidente, candidato às próximas eleições, é um típico abnegado, apaixonado e com talão de cheque na mão, tentando cobrir os buracos da administração abnegada e não profissional. Sinceramente, que esse momento sirva para que pelo menos possamos saudar nosso “ÚLTIMO MECENAS”, Alexi Portela Junior."

Nota: Essa Carta é para todos os nossos torcedores e público em geral, e em especial para os conselheiros, sócios, funcionários e atletas que participaram dessa árdua, mas prazerosa missão.
A você, Alexi, que tanto nos ajudou na telefonia do Barradão, meu agradecimento especial.

Escrito por Paulo Carneiro.

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